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40 FRAGMENTOS PARA OS 40 ANOS DA UNICAMP

Confira a Exposição

As civilizações que não conheceram a fotografia morreram duas vezes.
(Rio de Memórias, J. I. Parente e P. Monte-Mór, 1990.)

A contribuição do Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) às comemorações dos 40 anos da UNICAMP frisa sua própria origem e natureza além de nos fazer lembrar a participação decisiva do professor Zeferino Vaz na aquisição do núcleo original de documentos ocorrida em plena ditadura militar.

Foi de Rudolf de Jong, do International Institute of Social History, em Amsterdam, que o professor Paulo Sérgio Pinheiro, em janeiro de 1971, tomou conhecimento da "provável, mítica, existência do arquivo" pessoal de Edgard Leuenroth, até então guardado pelos herdeiros em um galpão no bairro do Brás, em São Paulo.

Tratava-se do arquivo pessoal de Edgard Frederico Leuenroth (1881-1968) figura humanista e de ideais libertários, responsável pela preservação de grande parte do registro do movimento anarquista em São Paulo no início do século XX. Tipógrafo desde a adolescência, em 1897 publicou seu primeiro jornal "crítico e literário", O Boi. Nos primeiros anos de 1900, interessou-se pelo socialismo e freqüentou o Círculo Socialista quando entrou em contato com o pensamento anarquista do qual jamais se afastaria. Em 1903 fundou o Centro Tipográfico de São Paulo e no ano seguinte transformou-o em União dos Trabalhadores Gráficos. Fundou, dirigiu e colaborou com a imprensa operária e libertária por longo período, algumas vezes sob os pseudônimos Palmyro Leal, Frederico Brito, Siffleur, Len e Routh. Esteve entre o grupo brasileiro de jovens libertários cuja formação influenciaria definivamente as gerações seguintes. Desempenhou papel de destaque na militância operária do início do século, em especial na greve geral de 1917 em São Paulo, mesmo ano que fundou um dos mais importantes jornais do período, A Plebe.

Os primeiros congressos operários, a fundação das primeiras organizações operárias, as greves, a literatura, o teatro, a vida cotidiana, a imprensa e a organização política, nada escapou da preservação do registro impresso em função da diversidade de seu arquivo pessoal. Leuenroth relacionava-se com libertários de outros continentes - acompanhava o movimento em diversos países da América Latina e da Europa: correspondia-se com a imprensa operária estrangeira e assim ilustrava com veracidade a imprensa anarquista local.

Durante as festividades comemorativas ao aniversário de 30 anos do AEL, em 2004, os professores Paulo Sérgio Pinheiro e Marco Aurélio Garcia, o primeiro, articulador da aquisição do acervo e fundador do AEL e o segundo, responsável por sua implantação, expansão de seu acervo original e pela sua institucionalização em 1986, deram-nos a honra de suas presenças e lembraram a influência do AEL "para uma visão mais complexa do anarco-sindicalismo e do aparato repressivo da Primeira República" bem como a fundamental intervenção de Zeferino Vaz na aquisição e na recepção da documentação.

Quando em 1971 ingressou no IFCH, o professor Paulo Sérgio Pinheiro teve a confirmação pelo professor Michael Hall - professor do instituto desde esta época e também articulador da aquisição do arquivo pessoal de Edgard Leuenroth -, da "real existência do acervo documental". Desde que tiveram início as negociações com os herdeiros somavam-se esforços em uma corrida contra o tempo e pior, contra as propostas incentivadas por brazilianista que havia usado os documentos ainda em poder da família. Durante quatro anos, visitas e conversas se emaranharam em negociações intermináveis com os filhos-herdeiros, Germinal e Nilo. Em 1974, finalmente a transferência para a UNICAMP deu-se "graças e exclusivamente graças a intervenção do professor Azis Simão" que os convenceu da seriedade do projeto.

Em carta de 13 de junho de 1973, assinada pelos professores Fernando Novais, Ítalo Tronca, Paulo Sérgio de Moraes Sarmento Pinheiro e José Roberto do Amaral Lapa dirigida ao então diretor do IFCH, professor Manoel Tosta Berlinck, respaldados por pareceres vindos dos especialistas uspinianos, tais quais Azis Simão e Antonio Cândido de Mello e Souza estava dada a saída para a consolidação de uma ousadia. Cuidadosamente, em nenhuma linha da missiva aparece a palavra "anarquista" ou "movimento operário", apenas "movimento trabalhista do século XX" - artimanhas necessárias para driblar o controle ideológico do momento, "não devemos esquecer a conjuntura política, fim da ditadura Médici", ressalva Paulo Sérgio. A carta destacava as coleções de jornais e livros e o fato de que muitos pesquisadores estrangeiros já haviam pesquisado no acervo em posse dos herdeiros, ainda para apressar as decisões narraram os interesses impróprios da aquisição dos documentos por grandes centros de pesquisa estrangeiros e ressaltavam que só não havia saído do país em função de legislação pertinente. O foco fora então dirigido às questões relativas às imigrações internacionais, à formação da mão-de-obra industrial no Brasil, a evolução industrial, a constituição da ideologia trabalhista e ao problema do populismo, abarcando assim grandes temas talvez uma pouco mais amenamente anunciados.

Em novembro de 1973 a FAPESP liberou a quantia de CR$50 mil cruzeiros e em 7 de janeiro do ano seguinte, o "professor Berlinck solicitou então ao reitor Zeferino Vaz mais CR$80 mil cruzeiros para acertar o preço fechado em CR$130 mil cruzeiros", ainda segundo o professor Paulo Sérgio, "o equivalente a cerca de U$200 mil dólares na época". Em 28 de junho o pagamento foi feito, com um pequeno abatimento, chegando a cifra de CR$120 mil cruzeiros.

"Sem Zeferino Vaz não existiria esse arquivo hoje", comenta o professor Paulo Sérgio Pinheiro, e prossegue: "A presença de Zeferino Vaz na Reitoria da UNICAMP com os vínculos com seus amigos humanistas da USP e de ciências exatas da FAPESP, especialmente Oscar Sala, que foi quem deu a grana para este arquivo ser comprado, tornaram possível em plena ditadura militar, numa universidade bastante vigiada - nos lembramos que dávamos aulas com a presença de agentes do SNI e vivíamos sob ameaças de bombas e de incêncio. [...] Mas é justamente esta confluência de Zeferino com os humanistas e os cientistas seus colegas que vão possibilitar que [...] uma fundação pública adquirisse um arquivo anarquista disfarçado de história social". A transferência da documentação dos anarquistas militantes do movimento operário para uma instituição pública em plena ditadura militar, financiado com recursos públicos que se propunha a estudar a organização operária em nosso país, parecia algo impossível. E lembrou ainda - agora sob risos - que "exatamente nesta época, o eminente historiador comunista inglês, Eric Hobsbawn em visita à UNICAMP, em 1975, ouviu do professor Zeferino: 'O senhor está vendo professor, todos comunistas... todos comunistas mas extremamente competentes...' Quando para o professor inglês, seriam todos 'camaradas' ", e arremata: "ninguém enganava Zeferino, ele sabia exatamente o que estava fazendo".

Certamente as relações políticas e pessoais do professor Zeferino Vaz com Severo Gomes, então nomeado ministro da Indústria e Comércio do governo do general Médici, em 1974, pesaram a favor do pedido de apoio ao primeiro projeto de financiamento para pesquisa no AEL: Imagens e História da Industrialização no Brasil (1889-1945), sob responsabilidade do professor Paulo Sérgio Pinheiro, financiado pelo Ministério da Indústria e Comércio, no período de dezembro de 1975 a abril de 1977. O apoio financeiro ao projeto possibilitou ampliar a recuperação de fontes para a história do movimento operário, nos piores momentos da ditadura militar: "como estudar a industrialização sem olhar para os operários", justificava o ministro pessoalmente ao presidente Médici, relata Paulo Sérgio.

Em 15 de outubro de 1975 a FAPESP outorgava a quantia de CR$52.200,00 (cincoenta e dois mil e duzentos cruzeiros) para a organização do acervo, "no sentido de constituição do Centro de Documentação para Estudos Brasileiros do IFCH" concretizando o projeto de um pioneiro do IFCH, professor Fausto Castilho, de criar um "arquivo de documentação social" paralelo ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas, que apenas começava no Rio de Janeiro.

A marcante expressão que o AEL conquistou entre alunos e especialistas da história política e social brasileira dos últimos séculos deu-se sob a tutela da UNICAMP que contou com a presença de professores e pesquisadores que utilizavam as informações documentais para ampliar e mesmo renovar seus estudos sobre a trajetória dos trabalhadores brasileiros e as lutas democráticas travadas em nossa sociedade nos últimos 40 anos, além de ter viabilizado a formação de um corpo técnico especializado no que havia de melhor oferecido àquela época no Brasil e no exterior, contribuindo para a consolidação da ciência arquivística em nosso meio.

40 FRAGMENTOS PARA OS 40 ANOS DA UNICAMP propõem um olhar para recentes episódios da vida política e social brasileira para validar o que foi feito antes de nós - pioneiros e corajosos homens e mulheres que juntaram papéis, que enfrentaram o medo, que ousaram agir, que trataram dos documentos para que eles permitissem lembrássemos do passado como algo que nos diz respeito, que nos formou, em contraponto a Borges apud Pinheiro: "passado é sempre um conjunto de lembranças muito precárias porque elas não são nunca verdadeiras. Cada vez que me lembro de alguma coisa não me lembro de verdade, porque eu me lembro da última vez que me lembrei disso, eu me lembro da última lembrança".

Elaine Marques Zanatta
Arquivo Edgard Leuenroth
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
UNICAMP

Ficha técnica da exposição:

Elaine Marques Zanatta
Coordenação

Maria Dutra Lima
Pesquisa histórica, linha do tempo, seleção de imagens e legendas

Maria Cimélia Garcia
Tratamento e preparação das imagens em meio digital e seleção de imagens

Andressa C. Piconi
Webdesign - Arquivo Central/SIARQ

Acervo documental utilizado nesta exposição
Coleção CPDS
Fundo Leon Hirszman
Fundo Mário Carvalho de Jesus
Fundo Teatro Oficina
Fundo Voz da Unidade


Produzido na Seção de Pesquisa do Arquivo Edgard Leuenroth/UNICAMP
Abril 2006

(Reprodução permitida desde que citadas as fontes contidas nas legendas.)